O ativo total consolidado das 50 maiores companhias de capital aberto listadas na B3 avançou 8,4% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da redação do Balanço com base em informações trimestrais (ITRs) divulgadas à Comissão de Valores Mobiliários. A expansão supera a média histórica de 5,7% observada nos últimos cinco anos e reflete uma combinação de acumulação de caixa, recomposição de estoques e aquisições corporativas concluídas no segundo semestre de 2025.

Composição do crescimento

Desagregando o número agregado, três componentes explicam a maior parte da variação. O caixa e equivalentes de caixa cresceu 12,1%, impulsionado por geração operacional robusta em utilities e bancos, além de captações de dívida de longo prazo realizadas antes do fechamento do exercício anterior. Estoques subiram 9,3%, com destaque para o setor de materiais básicos e consumo, onde empresas anteciparam compras diante de expectativa de alta de insumos importados. Por fim, o intangível e goodwill aumentaram 6,8%, reflexo de três operações de M&A relevantes no segmento de saúde suplementar e tecnologia.

O imobilizado, por outro lado, cresceu apenas 3,2% — ritmo mais moderado que indica menor volume de investimentos greenfield no trimestre. Isso contrasta com o ciclo de 2023-2024, quando expansão de capacidade produtiva liderava o aumento do ativo total em indústria e energia.

Setores que mais contribuíram

Entre os setores, financeiro concentrou 28% do incremento absoluto de ativo, seguido por energia elétrica (19%) e saúde (14%). No financeiro, o crescimento reflete principalmente aumento de aplicações financeiras e carteira de crédito, não necessariamente expansão de infraestrutura física. Já em energia, ativos de geração e transmissão em construção migraram para imobilizado conforme projetos entraram em operação comercial.

Construção civil e incorporação registraram queda de 2,1% no ativo total, coerente com desaceleração do lançamento de unidades residenciais e redução de estoques de terrenos em algumas incorporadoras de médio porte. Esse movimento merece atenção de analistas de crédito: a redução de ativo pode sinalizar desinvestimento estratégico ou, em casos específicos, necessidade de liquidez para honrar passivos de curto prazo.

Qualidade do ativo: o que olhar além do percentual

Crescimento de ativo total não é, por si só, indicador de saúde financeira. Analistas consultados pelo Balanço recomendam cruzar a variação do ativo com três métricas complementares: liquidez corrente, giro do ativo e proporção de ativos intangíveis sobre o total.

A liquidez corrente média do grupo subiu de 1,42 para 1,51, sugerindo margem adicional para cobrir obrigações de curto prazo. O giro do ativo, contudo, caiu levemente de 0,68 para 0,65, o que indica que o ativo cresceu mais rápido que a receita no trimestre — fenômeno comum no início de ciclos de investimento, mas que exige monitoramento se persistir por mais de dois trimestres consecutivos.

Intangíveis em foco

A participação de intangíveis e goodwill no ativo total passou de 11,2% para 11,8%. O incremento é modesto, mas concentra-se em setores onde premissas de valuation em aquisições são sensíveis a taxa de desconto. Em ambiente de juros elevados, goodwill elevado pode exigir testes de impairment mais frequentes, impactando patrimônio líquido em trimestres futuros.

Implicações para endividamento

O crescimento do ativo total ocorreu em paralelo a aumento de 7,2% no passivo total do mesmo grupo de empresas. A relação dívida líquida sobre EBITDA média permaneceu estável em 2,1 vezes, sugerindo que a expansão patrimonial não se financiou predominantemente por alavancagem adicional. Empresas que aumentaram ativo via caixa operacional — e não via dívida — tendem a apresentar menor pressão sobre covenants bancários nos próximos trimestres.

Há exceções: cinco emissores do grupo elevaram dívida líquida acima de 3,5 vezes EBITDA no trimestre, em todos os casos vinculados a aquisições recentes. Nesses casos, o mercado de crédito privado monitora de perto cronogramas de sinergia e potencial desalavancagem prometidos nos releases de fusão.

Perspectiva para o segundo trimestre

Para o 2T26, analistas projetam desaceleração do crescimento do ativo total para faixa entre 6% e 7% ano contra ano. Fatores sazonais — como menor acumulação de estoques após o primeiro trimestre — e base de comparação mais exigente explicam a expectativa. Ainda assim, o patamar permanece acima da média histórica, sustentado por investimentos em transição energética e digitalização de processos que exigem capitalização de software e infraestrutura de dados.

O Balanço continuará acompanhando divulgações trimestrais e publicará atualização setorial quando a totalidade das 50 empresas do universo de análise tiver reportado resultados do segundo trimestre. Sugestões de aprofundamento ou correções podem ser enviadas para [email protected].