Companhias dos setores de infraestrutura e energia elétrica registraram aumento médio de 11,3% na dívida líquida no primeiro trimestre de 2026, segundo análise do Balanço sobre balanços patrimoniais de 34 emissores de capital aberto nesses segmentos. O movimento reflete captações vinculadas a projetos de transmissão, geração renovável e concessões rodoviárias, muitos deles indexados ao IPCA ou ao CDI — o que amplifica o custo financeiro em ambiente de taxa de juros ainda restritiva.
Dívida bruta versus dívida líquida
É importante distinguir os conceitos. A dívida bruta compreende empréstimos, debêntures, arrendamentos e outras obrigações financeiras sem deduzir caixa. A dívida líquida subtrai caixa e equivalentes, oferecendo visão mais conservadora da exposição financeira. No grupo analisado, a dívida bruta cresceu 9,7%, enquanto caixa cresceu 4,2% — resultando no incremento líquido de 11,3% mencionado.
Parte relevante das captações foi destinada a CAPEX já contratado, não a distribuição de dividendos ou recompra de ações. Isso diferencia o endividamento atual de ciclos anteriores em que dívida financiou retorno a acionistas em detrimento de investimento produtivo.
Indexação e custo da dívida
Segundo formulários de referência consultados, aproximadamente 62% da dívida de longo prazo do grupo está indexada ao IPCA ou ao IGPM, e 28% ao CDI. Apenas 10% está em moeda estrangeira ou taxa prefixada. Essa composição expõe emissores a risco inflacionário e de juros, mas também protege credores em cenários de desvalorização cambial.
O custo médio ponderado da dívida (CDP) subiu de 10,8% para 11,4% ao ano no trimestre, reflexo direto da Selic elevada e de spreads de crédito corporativo que se mantêm acima da média pré-pandemia. Empresas com receita contratada em contratos de longo prazo — como transmissoras e geradoras com PPAs — tendem a repassar parte desse custo via reajustes contratuais, embora com defasagem temporal.
Cobertura de juros
Apesar do aumento do endividamento, a cobertura de juros (EBITDA dividido por despesa financeira líquida) permaneceu em patamar confortável para a maioria do grupo: mediana de 3,8 vezes, ligeiramente abaixo dos 4,1 vezes do trimestre anterior. Três emissores, todos em fase de construção intensiva, apresentaram cobertura abaixo de 2 vezes — limiar que costuma acionar atenção de agências de rating e bancos financiadores.
Perfil de vencimentos
O cronograma de vencimentos concentra 18% da dívida total nos próximos 12 meses e 34% entre 13 e 36 meses. O restante distribui-se em prazos superiores a três anos, coerente com maturidade de ativos de infraestrutura. Empresas com concentração de vencimentos no curto prazo — acima de 25% da dívida total — são monitoradas separadamente pelo Balanço; atualmente são seis emissores, contra oito no trimestre anterior.
Infraestrutura versus energia
Desagregando os setores, infraestrutura (concessões, saneamento, portos) apresentou alta de 13,7% na dívida líquida, enquanto energia elétrica avançou 9,1%. Em infraestrutura, o driver principal foram debêntures emitidas para refinanciamento de obras em andamento. Em energia, destaque para projetos eólicos offshore e híbridos que exigem capitalização de ativo antes da geração de receita recorrente.
Transmissoras mantiveram perfil de endividamento mais previsível: dívida líquida sobre EBITDA média de 3,2 vezes, estável há quatro trimestres. Geradoras independentes, por outro lado, exibem maior dispersão — de 1,8 a 5,6 vezes — refletindo diferentes estágios de maturidade de projetos e estratégias de hedge energético.
O que o balanço patrimonial revela
Além dos indicadores de dívida, o balanço patrimonial dessas companhias mostra crescimento de 7,9% no ativo imobilizado e de 5,4% em intangíveis relacionados a concessões e direitos de exploração. O passivo não circulante — onde se classifica a maior parte da dívida de longo prazo — subiu 10,2%, enquanto o passivo circulante cresceu 6,1%. A estrutura indica alinhamento entre prazo dos passivos e maturidade dos ativos, princípio básico de gestão de tesouraria em setores capital-intensivos.
Patrimônio líquido avançou 4,8%, ritmo inferior ao do passivo financeiro. Isso elevou a relação dívida líquida sobre patrimônio líquido (gearing) de 0,89 para 0,94 na mediana do grupo — ainda abaixo de limites típicos de covenants (1,0 a 1,5 vezes), mas em trajetória de alta que merece acompanhamento.
Cenário e implicações
Para credores e investidores em renda fixa corporativa, o quadro sugere risco moderado no agregado, com dispersão relevante entre emissores. Projetos com receita contratada e indexação de tarifas tendem a preservar capacidade de pagamento mesmo com CDP elevado. Já emissores em fase pré-operacional dependem de completion risk e de condições de refinanciamento no mercado de capitais.
O Balanço publicará comparativo setorial atualizado após a divulgação dos resultados do segundo trimestre. Dúvidas ou sugestões de análise podem ser enviadas para [email protected].